ENTREVISTA
TOM ZÉ
[por Bruno Bènard-Guedes + João Santos]



Toda a sua música está impregnada de neologismos, tanto nas letras como nos instrumentais em si. Concorda que toda a sua música, todo o seu trabalho pode ser visto como um grande neologismo na criação brasileira e na criação universal das últimas décadas?

 
Tom Zé: Talvez, talvez possa porque a única coisa que me sustenta na profissão de músico é um esforço muito grande para criar coisas singulares. E algo que me protege muito para fazer isso é o facto de eu ter descoberto minhas deficiências muito cedo. Logo quando eu estava tentando fazer as primeiras músicas, eu descobri que era um péssimo compositor e isso, uma vez tomado consciência, me salvava de qualquer narcisismo possível. E para quem não tem assim o dom de receber inspiração do céu, a única coisa que pode salvar mesmo é o esforço, a exigência, a ausência completa de qualquer autocomplacência e tal… E aí fica uma obrigação de cada trabalho - não vou nem chamar de trabalho… -, de cada brinquedo que eu produzo ser ele mesmo uma perseguição obstinada da diversão do ouvinte, como se eu estivesse produzindo pequenos abridores de garrafa para que, do outro lado do fio de comunicação, o ouvinte descodificasse isso e nessa descodificação ele se sentisse uma inteligência em acção, activo. E uma coisa que é importante: eu não posso fazer nada para o contemplativo, todo o meu treino foi para pescar o cognitivo das plateias e através dos tempos eu fiquei tão habituado a isso que nem percebo mais que na hora em que eu chego no palco, a plateia compreende imediatamente que eu não estou oferecendo alimento para o contemplativo, mas sim para o raciocínio e tal… E, quando ela está plenamente percebendo isso, aí começo a desvendar os pequenos segredos, aí cria uma intimidade, uma alegria…
 
Falávamos em neologismos também por essa necessidade de, no seio de uma música popular, ter de haver uma comunicação tão clara para captar a atenção do público, para do outro lado ter resposta a esses anzóis. É o que tem a ver com o tal acordo tácito, que muito cedo o Tom Zé explicitou, entre a sua função e o que está do lado do ouvinte…
 
Tom Zé: É… Eu acho uma ideia interessante e muito, muito gentil isso de chamar tudo isso de neologismo. Eu acho que pode… Quando eu fui fazer o meu primeiro concerto fora do Brasil, em 1993, eu estava desesperado. “Puxa vida, como é que eu vou cantar em lugares (era em Zurique, o show) onde a língua, que é um dos meus principais objectos de trabalho, não significa nada?” Mas aí, aconteceu esse neologismo de que você fala. No meio do show, eu digo assim: “por que é que a plateia ‘tá fazendo isso?” Então, eu percebi que a maneira de fazer arranjo e de trabalhar com a banda, quase botando a banda de cabeça para baixo, era também uma linguagem que já se expressava sem precisar de tradução. E realmente aqueles arranjos brincalhões acabavam sendo uma alegria para a plateia.
 
Pegando numa das narrativas paralelas de “Estudando o pagode”, podemos pensar que este disco - depois do estigma que a sua música sofreu depois do “Estudando o samba” e de todo o processo de recuperação dos últimos 15 anos - representa uma espécie de emancipação artística definitiva do Tom Zé e que pode ser considerado um regresso aquele ponto de futuro onde já estava há muitos anos?
 
Tom Zé: Bom, é o que diz: o futuro sempre é um objecto de duas setas porque, quando se observa o passado com bastante rigor, de certo modo o futuro está presente nessa coisa. E, também quando fiz esse disco, eu reparei que o passado é que fornecia mesmo essa metamorfose para trabalhar o futuro. Agora, “Estudando o samba” foi uma coisa feita com um certo desespero porque eu estava começando - até no disco fala isso - a pensar em largar a música por causa daquela crise, o facto de não ser possível conviver com aquela decepção terrível, como se fosse uma coisa atrás da qual está escondida uma coisa muito mais pesarosa, o facto de eu ter sido enterrado vivo na divisão do espólio do tropicalismo. Então, eu me lembro que eu estava com umas músicas e tal e, de repente, eu falei assim: “pô, todas essas coisas são sambas”… e eu queria fazer aquela coisa de entortar o mais possível a natureza dos sambas e eu pensei muito em botar o nome “Entortando o samba”, mas acho que, em música popular, isso ficava até pretensioso… “Estudando o samba”, se fosse música erudita, era pretensioso; mas em música popular era mais humilde. E tem outra coisa curiosa no “Estudando o samba”: é que eu fiz tudo com o maior rigor, pensando numa espécie de humildade. Por exemplo, não usamos fotografia minha em lugar nenhum, tem uma única fotografia com todo o pessoal que tocou, inclusive técnicos e tal. A capa do disco eu mesmo fiz, para poder fazer uma não-capa. E é engraçado como essa capa acabou sendo imitada em vários lugares.
 
E essa capa foi um pouco a chave da sua ressurreição, no momento em que David Byrne a viu, motivando-o a comprar o disco…
 
Tom Zé: Correcto. E até na hora em que David Byrne entrou na loja de discos, ele conta que viu a palavra “samba” com cordas e arame farpado e aí pediu o disco por causa disso… Então, é engraçado como essa linguagem humilde acabou sendo uma garrafa jogada ao mar - só para recorrer a uma imagem do povo navegador, porque eu gosto dessa brincadeira… -, uma garrafa num imenso oceano… Chega lá uma pessoa que tinha capacidade de prestar socorro e pega ela… Tem um disco curioso nesse meio, que é o “Jogos de Armar”. O episódio que compõe a ideia de “Jogos de Armar” foi feito em 1978, todos os instrumentos foram feitos em 78, toda a sonoridade feita em 78, no tempo em que os gravadores ainda eram de rolo. E, se não fosse uma fraqueza estúpida minha naquela ocasião, se eu tivesse lançado aquilo, o Brasil teria feito uma coisa muitos anos na frente. Hoje, quando a gente diz que faz uma coisa na frente, a gente fala numa questão de meses, questão de horas, digamos assim. Naquele tempo a gente estava falando em décadas. Tudo foi feito em 78: aqueles instrumentos, a orquestra de HertZé, o próprio sample, eu inventei ele, antes da tecnologia electrónica inventar… Em 78, eu fiz essas coisas e, em 88, o Instituto Alemão de São Paulo, o Goethe Institut, convidou a imprensa de São Paulo para assistir a umas bandas alemãs que faziam experiências com electrodomésticos. Uma dessas pessoas, que naquela época já teria 25 anos, quando eu fiz os meus instrumentos, ele tinha 15 anos e estava lá, era uma criança e estava lá. E ele escreveu num jornal: “o Instituto Goethe chamou e nós fomos, mas não tinha nada melhor ou mais avançado do que o Tom Zé apresentou no palco da GV (N.R.: Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo), em 1978, dez anos antes”. Naquele tempo, meu nome não saía em lugar nenhum! Meu nome não saía em lugar nenhum… Eu vi meu nome num negócio desses, me mostraram, eu cheguei, procurei o repórter, fui lá conversar com ele e ele então me disse que era criança e que tinha ido num dos shows - foram três shows, no Teatro da GV, que era um lugar famoso de música contestadora e tal… Cada show desses tinha sido assistido por 100 pessoas. Ele foi uma dessas 300 pessoas e me mostrou como era interessante essa coisa… Outro disco, foi o “Hips of tradition”… porque, de repente, alguém me falou que, depois de fazer um disco experimental como o “The best”, eu estava fazendo um disco folclórico. Aí, eu mesmo tive que olhar para o disco assustado… E depois eu me lembro de uma matéria do Boston Herald dizendo que “nós americanos não temos a chave da novidade, somos incapazes e tal”, se queixando, comparando com o “Hips of tradition”. E uma coisa que ajudou o “Hips” também a ficar na linha das coisas anteriores foram aquelas cortinas que não foram praticamente feitas por mim… Nos Estados Unidos, na hora de fazer a mixagem, o Arto Lindsay me perguntou se podia mexer com algumas brincadeiras sonoras que eu tinha feito e aquilo deu uma capacidade ao disco de ficar comparável ao “The best”. Aí… qual é o outro disco que tem nesse intervalo?
 
“Com defeito de fabricação”…
 
Tom Zé: Ah, esse disco teve um problema… Esse disco, quando nós o recebemos, nós choramos… Eu e o Gil (o Gilberto Assis) fizemos esse disco muito a quatro mãos e teve um problema em São Paulo: a pessoa que me ofereceu o estúdio para gravar, na verdade queria era se aproximar de David Byrne. Como eu não podia fazer ele se aproximar de David Byrne - primeiro porque eu não sou dono de David Byrne, depois porque não podia fazer a obra dele ficar interessante para David Byrne -, aí o camarada começou a sabotar o disco e, quando o disco chegou nos Estados Unidos, chegou algo no qual eu nem me reconhecia. Aí, os americanos começaram a dizer: “’pera aí, Tom Zé, tenha calma, não vamos lançar agora, precisamos ver umas coisas antes”… e, de repente, eles estavam refazendo o disco todo nos Estados Unidos, com um grupo de músicos gregos que eram amigos de Byrne e que tocavam samba bem. E inclusive me chamaram para cantar o disco todo num estúdio especialista em voz, que ia afinar a minha voz, porque estava uma desgraça tão grande que eles pensavam que eu tinha desaprendido de cantar. Por sinal era um estúdio óptimo, um estúdio só de voz no Estados Unidos, lá no Bronx… Enfim, o facto é que eu e o Gil ficamos lá esperando o disco chegar para aprovar. Quando o disco chegou, quando nós o vimos, a gente falou: “olha, ou manda dizer que isso não tem nada a ver ou manda soltar isso de uma vez, porque a gente não pode ir mais para os Estados Unidos outra vez para ir fazer esse disco”. E, depois, David Byrne estava com medo de um tipo de coisa que no “Jogos de armar” veio na crítica do Village Voice - o cara disse assim: “O único disco de Tom Zé que não tem esse tipo de perseguição que ele faz daquele arranjo que são os ostinatos no baixo e os contrapontos do cavaquinho com aquelas respostas do coro é o disco “Com defeito de fabricação”, que é um disco muito byrnezado, muito byrneficado… Veja como foi um sofrimento aquele disco, nossa senhora!…
 
Até os jornalistas americanos entenderam isso…
 
Tom Zé: Compreenderam isso quando ouviram o “Jogos de armar”… Eles disseram: “Tom Zé persegue um tipo de arranjo e David Byrne não queria mais que ele fizesse aquilo”. Ele achava que aquilo era um sinal de que eu tinha perdido a capacidade de inventar. Eu, francamente, achava que não, que eu devia continuar perseguindo aquilo. Agora, quando eu fiz esse disco, eu não fiz muitas vezes ostinatos por causa daquilo e tal, mas é um tema que eu pretendo até retomar.
 
Mas está sempre presente… E, de qualquer maneira, neste disco há o elemento da desarmonia que são as folhinhas de figueira, não é?
 
Tom Zé: Sim, certo… E neste disco eu tive um colaborador de que, com uma certa injustiça, não tenho falado, que é o Jair Oliveira. Eu quando fiz as músicas, muito simples, que eram vigiadas pelos dois adolescentes, você sabe… quando eu fiz, quando as músicas ficaram conhecidas, eu tive a maior dificuldade de fazer os arranjos. Eu não conseguia fazer os arranjos… Olha, para cada música dessas eu fiz arranjos umas cinco ou seis vezes e não prestou nenhum. Desmantelava o que estava fácil… E aí, Jair Oliveira, com quem eu tinha passado dois anos conversando, na hora em que entregava a música a ele, ele no estúdio fazia o arranjo na hora… Realmente ele é uma pessoa muito dotada, muito capacitada e tal… Eu devo a ele a beleza que esse disco tem. Eu devo ao Jair…
 
Terá sido o Jair que trouxe esse ambiente mais tropicalista, esse tal regresso ao futuro do Tom Zé?
 
Tom Zé: Sim, pode ser, acho que vocês têm razão.
 
Até porque todo o brilhantismo com que a sua música chega dos Estados Unidos no princípio da década de 90 também coincide com uma explosão dos valores tropicalistas na juventude americana nessa altura - e a geração de Jair tem a ver com essa quase obsessão em recuperar o passado e reconhecer todos os méritos que os precederam…
 
Tom Zé: Sem dúvida. Mas o facto é esse: eu devo a beleza desse disco ao Jair, porque se não fosse ele eu talvez complicasse tanto que iria ficar mais terrível do que eu já sou…
 
Voltando à pergunta de base: acha que este disco tem essa emancipação do Tom Zé, em todos os aspectos criativos e comerciais, mas também na vertente mais masculina?
 
Tom Zé: É, tem essas coisas… Mas eu acho que a pergunta de vocês é tão exacta que o melhor é eu assinar em baixo…
 
Este disco relembra-nos também que sempre houve muito na História do Brasil essa cultura da imagem do corpo e da representação do corpo, da estilização e idealização do corpo feminino. Isso permitirá uma condição feminina diferente no Brasil? Ou continua a ser uma descriminação? Ou já evoluiu para outra coisa que já nem é descriminação?
 
Tom Zé: É… inclusive, na Bahia, as moças têm a cultura do convívio do seu próprio corpo, que é uma coisa impressionante, é uma coisa que não tem em nenhum outro estado do Brasil: elas andam e vivem, andando na rua, por exemplo, com uma consciência profunda de todas as células do corpo.
 
Como um traço da auto-confiança de saberem que estão a ser observadas…
 
Tom Zé: Isso, sendo observadas e observando… Todo o movimento das mãos, do braço, das ancas, é uma coisa que está toda sob controle da mente o tempo todo, é um fenómeno curiosíssimo.
 
E nesse processo ainda há a descriminação? Ou é tudo jogo?
 
Tom Zé: Não, aí entra uma coisa que na Bahia é diferente: é claro, é como se fosse uma turma dos homens e uma turma das moças, mas a turma das moças na Bahia é muito mais audaciosa, é muito mais de ter uma cultura própria no sentido de ter toda uma série de jargões que formam o núcleo da coisa de ser mulher. E elas têm uma participação nas responsabilidades da vida diferente da dos outros Estados, parece que elas têm mais participação que o homem baiano - que é muito mais feminino que o homem do resto do Brasil - e a mulher tem muito mais voz activa nas coisas. Isso era uma observação até de uma ideia de fazer esse disco... Mas é como eu digo: eu estou conversando com vocês, tentando conversar, porque eu acho tão pertinente a maneira como vocês estão olhando essas coisas que o melhor é assinar em baixo, realmente, o melhor é assinar em baixo. O anzol que vocês jogam para obter coisas das músicas é muito interessante… A maneira da imprensa portuguesa ver e se interessar por um trabalho é completamente diferente do que acontece no Brasil. No Brasil, a discussão sobre esse disco ficou só na discussão sobre o facto de eu ter trabalhado com o pagode e acabou…
 
Em que houve, por um lado, interesse por esta regeneração da forma popular e, por outro, também um ataque...
 
Tom Zé: Mas o assunto nem era esse, o assunto era que o pagode era uma música segregada e era ficar com uma conversa que aparentemente parecia pergunta mas que era afirmação: “Como é que você vai mexer numa porcaria dessas? Que é que você tem a ver com os cantores de pagode?”… Quando eu falo no nome dos cantores de pagode nos meus concertos no Brasil, as pessoas caem na risada… Falar no Belo, no Netinho… É um verdadeiro absurdo.
 
Continua a haver um enorme preconceito…
 
Tom Zé: Preconceito mesmo!… E eu me lembro que a TV Cultura fez aquele programa, “Roda viva”, com Júlio Medaglia e outros, e que não saiu disso… Tanto que, quando acabou o programa, uma das moças que estavam presentes, chamada Flávia Guerra, do Estado de São Paulo, me disse assim: “Puxa, Tom Zé, não se falou de mulher aqui… Só se falou de pagode, os homens tomaram tudo….” E quando se falou de mulher foi logo para destruir o assunto - eu me lembro que o Júlio Medaglia, na hora em que falou “Vamos falar de mulher?”, alguém falou assim: “Com’é, esse disco já provocou muitos orgasmos por aí?”… Quero dizer, esculhambou logo com o assunto de mulher…
 
Foi directo ao fim da discussão…
 
Tom Zé: É…
 
Por outro lado, há também um pouco essa recuperação recente do pagode por uma certa classe alta…
 
Tom Zé: ’Pera aí! Aí é outra coisa… Atrás do prédio em que eu moro agora tem um prédio de rico, cujas piscinas e churrasqueiras e tal são praticamente na janela do meu quarto. E quando eu fui morar para lá, em 98, na primeira festa que teve foi só pagode… Aí vem a segunda festa e pagode de novo… De forma que eu comecei a estudar o pagode, digamos assim, dormindo. E tinha duas coisas que eram os verdadeiros tabus em São Paulo: a música caipira, que era considerada uma coisa horrorosa, e o pagode, que era considerada uma coisa horrorosa. Agora se tornaram, há cerca de dez anos, as maiores vendagens de discos, moda toda assim, que nunca está na classe média…
 
É uma classe economicamente alta, mas não culturalmente alta…
 
Tom Zé: Mas é assim, você vai ver os ricos, mas não tem classe culturalmente alta no Brasil, você está enganado.
 
Tem é muito snobismo intelectual, que é igual ao racismo, igual ao sexismo, etc…
 
Tom Zé: Correcto, exactamente! É impressionante isso… Por exemplo, esse rapaz que me ajudou a fazer o disco, a super-estrutura do disco, o Arthur Nestrovski, que é realmente um intelectual, ele quando foi ver o show chegou dizendo: “Tom, ninguém está fazendo uma coisa como essa, uma brincadeira quase teatral em cima do palco, com músicas e tal, não tem isso no mundo…” Uma coisa engraçada: foi a única pessoa que nos deu consciência disso. Eu vou contar a vocês uma coisa: “Estudando o samba”, quando eu o fiz, em 76, tinha esperança de ter feito uma coisa bonita, uma coisa importante. Aí, eu procurava aqueles amigos intelectuais, Rogério Duprat, Décio Pignatari - isso eu estou contando a vocês, porque eu nunca contei no Brasil… -, eu chegava e fazia gestões para eles ouvirem, eu inventava até mentiras. Eu dizia assim: “Olha aqui, eu fiz um disco abrindo as pernas, fiz um disco completamente esculhambado…”, para poder ouvir eles dizerem: “Não, ‘tá normal”... A melhor crítica que eu consegui ouvir destes meus amigos intelectuais sobre o disco “Estudando o samba”, de 1976, foi: “Está normal!” Como é que pode um disco destes depois ter o respeito que tem hoje, acabar sendo um dos melhores discos da década, logo num país que fazia durante muito tempo a música popular mais audaciosa? Uma loucura, né…?!
 
Ainda por cima se pensarmos que, em 1976, musicalmente, o Brasil estava numa transição para qualquer coisa que seria, mais tarde, a popularização da MPB… E, de repente, aquilo só poderia parecer estranho demais ou popular demais…
 
Tom Zé: Olha, tem assim três ou quatro pessoas que falaram do “Estudando o pagode”, os outros nem falam, não consideram, entende? Tem uma coisa também que é comum: as pessoas que muitas vezes estão no carro-chefe, [em posição] de poder decifrar as coisas, estão disputando terreno com você… Se eu estou dando alguma colaboração para vocês entenderem o Brasil, eu a dei agora. As pessoas que podiam falar e que estão na posição de capacitação crítica, de formação sobre o que acontece no mundo, estão disputando terreno com você. E aí, como é que você vai obter alguma coisa deles? Então, é como diz António Carlos Jobim: “a única saída para o músico brasileiro é o aeroporto”.
 
Que tem o nome dele…
 
Tom Zé: É… Piada, ficou inclusive com o nome dele…
 
Ele que ia tanto para o aeroporto…
 
Tom Zé: Ele se queixava muito também de que no Brasil ele não era respeitado e tal…
 
E a saída foi inevitável: toda a geração dele e a geração a seguir à dele já vivia nos Estados Unidos e na Europa em meados dos anos 60…
 
Tom Zé: Isso, correcto…
 
Acha que podemos dizer que “Estudando o pagode” é um disco que está acima do bem e do mal? Ou qual é a sua moral?
 
Tom Zé: Bom, o que me moveu primeiro foi a constatação de que tem muito pouca mulher que goza. Eu pensava até que eu era, digamos assim, um amante inapto… Mas, quando eu estava para lançar o disco, no dia 10 de Outubro de 2004, saiu uma pesquisa da USP (N.R.: Universidade de São Paulo) onde tinha essa coisa que 80% das moças de 15 a 25 anos se queixavam que não tinham prazer nas relações sexuais porque o homem não tava nem ligando e tal… Então, eu cheguei à conclusão de que eu estava certo, de que, na minha infância, na minha juventude, a experiência que eu tive coincidia com a que existe agora. Minha mulher, a Neusa, é uma pessoa muito delicada. Sempre que eu faço coisas muito violentas ela reclama, fala que eu preciso ter cuidado e tal… Mas quando eu falei do assunto desse disco com ela, ela plenamente começou a colaborar. Começámos a procurar livros para estudar, inclusive um livro, de uma editora portuguesa, da Riane Eisler, que tinha algumas descobertas de fontes de pesquisa que usou para estudar a situação da mulher através dos séculos. E, embora ela seja de opiniões muito feministas e a gente faça ressalva das opiniões dela, foi o livro que mais ajudou, porque os outros… não tem aquela coisa profunda e maravilhosa da Simone de Beauvoir, que é uma coisa encantadora, ou aquela comovente intuição da Mary Wollstonecraft. A mística feminina da americana dos anos 40 realmente é aquela coisa: para os americanos a poderem suportar, ela teve de fazer uma coisa calculada… E então quem me orientou sobre o lado moral foi essa aceitação imediata da Neusa em que nós trabalhassemos esse tema. Porque ela trabalha comigo todos os temas… Na verdade, ela é a intelectual da casa, eu sou o analfabeto lá em casa, em relação a ela. Ela foi sempre uma pessoa que foi dos livros, dos estudos e tal… Uma alma verdadeiramente não-brasileira, porque ela quando criança já era assim. O pai dela, que é do Porto, era quem reunia os padres - no interior, no mundo intelectual, os padres sempre estão presentes, porque realmente eles são pessoas muito cultas em relação à vida… São os padres, o juiz, o promotor… É essa a vida intelectual do interior… O pai dela reunia na casa dele esse tipo de pessoa… e sempre falando de livros… Quando ela tomou o pé na vida, começou a ler. E com 14 anos, quando o SESI de Ribeirão Preto abriu um concurso, ela fez o teste com velhos e novos e passou em primeiro lugar. Então, ela trabalhou no SESI toda a vida profissional dela, foi funcionária do SESI, que é o Serviço Social da Indústria. Então é isso: Neusa é que me deu o respaldo para eu tratar de uma coisa moralmente tão delicada como é esse assunto. De minha parte era o assombro de ver que muito poucas mulheres gozavam e de eu ter, naquela ocasião, pensado: “Puxa, as mulheres são assim porque os homens são terríveis. Elas vivem como se fossem um ser inferior”. Eu vou dar uma colaboração, que não sei se é propriamente moral, para tudo o que vocês estão dizendo, que é melhor do que o que eu estou respondendo: nós fomos ver na França o “La dame à la licorne”. O tema é imensamente atractivo, é impressionante aquela série de cinco ou seis tapetes que tem uma grande dama da idade média e um animal mítico, mitológico, que tem um único chifre enorme. E uma coisa curiosa é o seguinte: tem uma hora em que a mulher está pegando no animal e, nessa hora, chama-se “A vista”. O outro é “O ouvido” e o outro é “O tacto”. Mas o tacto, o que chamam “O tacto” é na hora em que a mulher está pegando no chifre do animal. Então, parece que todo o mundo que está vendo aquilo está vendo o abismo de uma sexualidade impossível entre duas espécies diferentes. Se a mulher foi tratada, a vida toda, como segundo sexo, deixou de ser uma coisa igual ao homem. E então é como se o homem e a mulher vivessem também esse abismo que tem naquele mistério da “La dame à la licorne”. E realmente eu estou falando de uma amoralidade; ou estou falando de uma situação que ficou tão imoral que já nem é mais assunto moral. Eu estou falando de uma aberração de sexo entre duas espécies diferentes.
 
Uma nega tanto a humanidade da outra que chega a uma altura em que não pode haver igualdade…
 
Tom Zé: Nunca, nem pode ter relação sexual. Parece que quem também me inspirou isso - só agora eu também estou percebendo… - era o caso de uma moça que era professora de ginástica de uma academia que tem em baixo do meu prédio. Eu achava aquela moça grosseira, curiosa… E aí, um dia eu vi ela com um namorado… “Puxa vida!”… Realmente é como se eu pensasse que ela nunca teria a ousadia de ter um namorado… Estava de roupa mudada para ver o namorado, toda cheia de cabelo, de rouge, de baton… Para mim, era como se fosse impossível alguém recuperar a feminilidade naquele ser que tinha ficado grosseiro por causa do próprio tratamento que recebe. Eu acho que essa musa esteve o tempo todo perto de mim, sem eu perceber essa criatura oprimida que era ela… Ela agora se casou com esse rapaz, tanto que eu incentivo muito quando eu vou ver ela: “Cadê o seu marido? Como ele ’tá? Diga a ele que eu mandei lembranças. Meus parabéns porque casaram e tal…” E parece que ela se está dando bem… O que eu vi era só uma superfície que não é real… Parece que ela se está dando bem como mulher. E talvez vocês aqui da Europa não sejam tão segregadores como se é lá… Então, parece que é uma coisa rara esse negócio da mulher ser oprimida a ponto de virar outro segundo sexo. E também essa coisa da Simone de Beauvoir é genial, né…?! Essa coisa de chamar de segundo sexo é de foder!… Não é brincadeira…
 
Vamos propor aqui um jogo de ligação entre conceitos opostos, para tentarmos entender qual é a relação do Tom com eles neste disco. Começando pela oposição entre moderno e tradicional…
 
Tom Zé: Eu acho que estão de tal modo laçados nesse disco que não podem se separar…
 
Entre erudito e popular…?
 
Tom Zé: Também acho que, de propósito, cheguei bem perto do erudito, tentando o máximo possível ser popular. Ou melhor, justamente porque certas coisas eram muito populares… E eu trabalhei com elementos que são do mundo erudito, né? Principalmente o contraponto…
 
Entre lixo e luxo…?
 
Tom Zé: Certo… Perfeito… O lixo, o lado da música mais segregada, mais desqualificada… eu realmente tratei-o com zelo de bico de pena. Correcto, isso…
 
Entre fantasia e realidade…?
 
Tom Zé: Aí… Eu não pensei ainda sobre isso, mas vou pensar de agora em diante. Fantasia e realidade… Bom, o que me ocorre ouvindo essas palavras é o seguinte: como eu sonhava, na juventude, que todas as mulheres procedessem como aquela primeira namorada que eu tive, que era uma sensibilidade física, que era um corpo de sentidos. E aí, todas as namoradas que eu tive e que não sentiam nada eram um negócio terrível, parecia que estava anulada a minha existência. Mas isso é o que me ocorre… Me diga novamente a oposição…
 
Fantasia e realidade…
 
Tom Zé: Tá, continue, eu vou pensar…
 
Entre ateu e religioso…?
 
Tom Zé: Ah… Certo… Certo, porque o tempo todo eu sabia que tem uma tradição religiosa que, talvez intuitivamente, diz que a mulher é a única intermediária que pode levar o homem ao divino. Isso tem tanto na teosofia, quanto no conhecimento esotérico como até dentro das religiões, apesar das cartas de São Paulo aos Coríntios, etc, etc… Nisso eu pensava, sim, o tempo todo…
 
Entre carne e espírito…?
 
Tom Zé: Carne e espírito… Tem uma coisa que eu dizia sempre no Brasil: tem duas maneiras da carne vibrar como o espírito - uma é o êxtase religioso e a outra é o êxtase do sexo amoroso, onde a carne e o espírito chegam perto. Então isso aí já estava falado…
 
Entre dor e prazer…?
 
Tom Zé: Certo, isso eu falei no livro (N.R.: o seu livro “Tropicalista lenta luta”), né? Podia estar no meu subconsciente… Se lembra daquela personagem do meu livro que era uma mulher que tinha a função de ser a primeira experiência para todo o rapaz de família em Irará, que eu dizia que punha em dúvida esse pilar da filosofia ocidental que é a dor e o prazer - e a filosofia de todos os povos, creio eu, né…? Então, isso estava presente, sem dúvida.
 
Entre contraditório e consensual?
 
Tom Zé: Certo, certo… Muito interessante, isso… Vou pensar, é uma boa ideia para eu pensar. Que mais?
 
Entre Irará e Nova Iorque?
 
Tom Zé: Ah… Bom… O que me ocorreu agora: eu tinha de Irará essa lembrança dessa primeira namorada que gozava… e tinha de Nova Iorque a lembrança de que alguém, um jornalista brasileiro, fazendo crítica ao sexo praticado pelas moças em Nova Iorque, diz que elas gozavam dizendo: “Oh god!”. Eu não sei por quê isso ficou na minha cabeça… É a única coisa que eu me lembro agora…



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